Muito antes de jogos como Medal of Honor, Final Fantasy VIII e Heart of Darkness apresentarem músicas sinfônicas em CD, Actraiser, no Super Nintendo, trazia melodias que, embora fossem sintetizadas, passavam a sensação de serem tocadas por uma orquestra real. Por um motivo: Yuzo Koshiro, de fato, utilizou samples orquestrados, e graças ao seu vasto conhecimento de programação, conseguiu comprimi-los em um cartucho. Isso que o jogo, lançado em dezembro de 1990 no Japão, era da primeira leva de lançamentos do SNES.

Precedendo a versão americana em novembro de 1991, as faixas foram arranjadas e orquestradas para o álbum Synphonic Suite from Actraiser (o nome tem esse erro grotesco mesmo, “Synphonic”, quando o correto seria “Symphonic”), lançado em setembro daquele ano. Enfim, recebiam a roupagem com a qualidade pela qual as composições foram imaginadas originalmente. Nota-se a genialidade de Koshiro ao criar músicas eruditas com um toque à la John Williams (Guerra nas Estrelas).
A orquestração de Kaoru Wada, que se notabilizou na função com as trilhas de Kingdom Hearts I e II, foi majestosa, haja vista que os arranjos serviram de base para performances ao vivo em concertos de game music como Second Symphonic Game Music Concert na Alemanha e Press Start 2007 ~Symphony of Games~ no Japão. No álbum, Wada também conduziu a Orquestra Filarmônica Shinsei Nihon, nos 30 minutos de duração do CD – tempo reduzido, mas de grande inspiração.
“Intermezzo I”,“ Intermezzo II” e “Intermezzo III” nada mais são do que três curtíssimas interpretações (e por que não, irrelevantes) de “Birth of the People” com diferentes instrumentações: a primeira com violinos, a segunda com harpa e a terceira com metais. A verdadeira orquestração está na companhia de “Offering”. “Birth of the People ~ Offering” é uma peça magnífica, com oboé, clarinetes, flautas e violinos, que parece ser composta no período barroco.
As outras aparecem reunidas em grupos de duas, três ou quatro faixas como nas suítes “Opening ~ Sky Palace ~ Blood Pool ~ Casandora”, “Pyramid ~ Marana ~ Silence ~ North Wall” e “Aitos ~ Temple ~ Descent ~ World Tree” (o excerto de “World Tree”, com metais e tímpanos, é arrebatador). Questiono a ordem da seleção, já que não segue a seqüência dos acontecimentos no jogo. Melhor se “Descent” viesse depois da pomposa “Opening” e da “Sky Palace”, tocada não com órgão de tubo que seria o habitual, mas singelamente reproduzida pelas madeiras.
A única arranjada sozinha, sem ser acompanhada por outras faixas, é “Filmore”, o emblemático tema da primeira fase que sofreu a maior alteração em relação à original. O ritmo foi drasticamente reduzido, e as batidas da bateria e o baixo slap sintetizados se perderam. A ênfase é em cordas. Não compromete, mas perde impacto.
“Peaceful World ~ Ending” (“Ending”, aliás, alude à vinheta da 20th Century Fox) encerra soberbamente o àlbum, que confirmou o que Dragon Quest já havia mostrado: há espaço para músicas eruditas nos videogames.
Por Alexei Barros (Hadouken)