Se a Square Enix é uma das empresas mais produtivas no lançamento de CDs de game music, a Falcom não fica por menos, com a diferença de que não é dotada da popularidade monstruosa da gigante dos RPGs. Enquanto uma é proprietária de Final Fantasy, Dragon Quest e Kingdom Hearts, a outra conta com Ys, The Legend of Heroes e Dragon Slayer… Muitos capítulos não aportaram no ocidente. Não dá nem para comparar a fama. E ao passo que a Squenix tem The Black Mages (a de maior notoriedade, não chega a ser necessariamente o grupo da produtora, pois três dos integrantes nem trabalham mais lá e o repertório é exclusivo de FF), a Falcom foi representada pela J.D.K. Band.

Os dois arranjos heavy metal do trio Presence Project na caixa Falcom Special Box ‘90 (1989) serviram de semente para a formação da J.D.K., que estrearia oficialmente no Ys III J.D.K. Special (1990), CD que trouxe a trilha sonora original e mais três releituras conduzidas pela banda. O principal responsável pelo Presence e J.D.K. era Tomohiko Kishimoto, vocalista, guitarrista e baixista. Ainda que outros instrumentistas eventualmente se juntassem, ele também programava a bateria sintetizada em muitas das performances em estúdio. Sozinho, Tomohiko Kishimoto era a J.D.K. Band e vice-versa.
Na década de 1990, a J.D.K. chegou a lançar quatro álbuns, a saber, Falcom J.D.K. BAND 1 (1991), Falcom J.D.K. BAND 2 / Dark Fact’s Counterattack (1991), Falcom Vocal Special J.D.K. BAND 3 (1993) e Ys IV vs The Legend of Xanadu J.D.K. BAND 4 (1994). A notoriedade do conjunto garantiu a participação nos eventos Game Music Festival ’91 e 92, Japan Game Music Live 1993 e Game Music Live Dengeki ’93 na companhia dos grupos de outras produtoras. Nenhuma das participações da J.D.K. nesses shows foi publicada, infelizmente. No começo de 1996 a banda da Falcom se despediu com três arranjos no Image Album Ys V – Sound of the Lost Sands Kefin. Depois do fim, a J.D.K. foi relembrada esporadicamente por meio de coletâneas, nada mais que isso.
Eis que onze anos após a dispersão, surpreendentemente ela renasce. Sem Tomohiko Kishimoto. Com outros integrantes. E com nova grafia no nome. O ressurgimento ocorreu no show jdk Band Live “Rebirth”, com músicas das séries Ys e The Legend of Heroes: Sora no Kiseki em duas apresentações, no dia oito de outubro em Tóquio e em 29 de setembro de 2007 em Osaka. Os maus hábitos da época do GMF perduravam. O único registro do evento foi disponibilizado como DVD bônus na compra do jogo Sora no Kiseki Material Collection Portable (PSP) pela loja online da Falcom. Pior, o vídeo é de ultrajantes 15 minutos.
Em maio desse ano o retorno foi oficializado no álbum de estúdio Falcom jdk Band 2008 Spring, com a formação idêntica do show: Mikihito Tanaka e Masaru Teramae nas guitarras, Atsushi Enomoto no baixo, Norisuke Yoshikawa na bateria, Maiko Kawahara no teclado e a mais bem-vinda novidade: Ren Ohara no violino. Agora com todos os instrumentos reais, a nova jdk Band preserva o levante hard rock da antiga J.D.K. Band de Tomohiko Kishimoto, mas a supera com arranjos muito mais sólidos, consistentes e orgânicos sob a pena de Yukihiro Jindo. Adeus, batidas artificiais de bateria. E adeus ao vocal muitas vezes desnecessário de Kishimoto. Aqui apenas uma é cantada, e bem cantada por Miki Sumiya na penúltima, a balada “Honoka ni Kirameku Hikari”, de The Legend of Heroes: Sora no Kiseki 1st (PC, 2004).
Em muitos CDs é freqüente a abertura ser arrebatadora, e a empolgação se debandar ao longo das faixas seguintes, não raro trazendo conseqüências soníferas. Não é o caso. “Overdosing Heavenly Bliss”, de The Legend of Heroes: Sora no Kiseki the 3rd (PC, 2007) é uma enlevante seqüência guitarrística, com a intervenção preciosa do violino, que enriquece a música com um toque rock sinfônico, que se estende à “THE DAWN OF Ys”, de Ys IV: The Dawn of Ys (PC Engine, 1993). Desbanca a “THE DAWN OF Ys” do Kishimoto, a ponto de fazer parecer a versão antiga um trabalho amador.
Assinada por Yuzo Koshiro, “Tower of the shadow of death”, oriunda de Ys: Ancient Ys Vanished (PC-8801, 1988) e “Kraken”, do Sorcerian (PC-8801, 1987) incrivelmente mantém a inspiração inicial. A serenidade aparece na acústica “A Cat Relaxing in the Sun” (The Legend of Heroes: Sora no Kiseki 1st), com piano e violão, combinação que se repete na “Sora no Kiseki”. “Illusionary Land, Serpentina”, de Zwei!! (PC e PS2, 2001) preserva resquícios da tranqüilidade da anterior, embora seja um bocado mais agitada.
Quando a pegada hard rock do princípio retorna na pesada “Blue Dragon” (Sorcerian), aparece a dúvida se o álbum não é melhor do que o The Black Mages III Darkness and Starlight. Mas aí os violinos resplandecentes na “Silver Will” (The Legend of Heroes: Sora no Kiseki 1st) – aqui com a convidada Akiko Nagano –, “RELEASE OF THE FAR WEST OCEAN” (Ys VI: The Ark of Napishtim), com um quê de Castlevania, e na última, a irresistível “Along a New Path”, proveniente de Vantage Master Portable (PSP, 2008), não deixam a menor sombra de dúvida. E olha que a jdk não usufrui a genialidade das composições de Nobuo Uematsu como os Black Mages, apesar de, em compensação, ter um dos primeiros trabalhos de Koshiro.
Você pode nunca ter ouvido falar ou jamais jogou Ys ou Sorcerian. Não é preciso conhecer as músicas originais para se extasiar com os 12 arranjos impressionantes. Falcom jdk Band 2008 Spring é sério candidato a melhor álbum de game music do ano. Que seja o primeiro de muitos. Falta a banda participar de mais shows como no passado.
Por Alexei Barros (Hadouken)
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