[Mais uma coluna onde o grande Alexei Barros escreve sobre álbuns de Game Music. Dessa vez, o alvo é o mais recente lançamento da série com as melhores trilhas de rock: Guilty Gear. E dessa vez é em dose dupla. Overture Vol. 1 e 2. Comente, e deixe suas sugestões para futuras análises]
Por Alexei Barros
Há cerca de um mês você viu aqui no Blogeek que Guilty Gear 2: Overture chegará aos EUA. Quem sabe não seja para compensar o prejuízo no outro lado do mundo. O resultado comercial no Japão do jogo para Xbox 360 não foi lá muito satisfatório, o que acabou afetando diretamente a vendagem da trilha sonora. Mal apareceu no mercado – Vol.1 em 05/12/07 e Vol. 2 em 01/01/08 – e já sairá do varejo em junho. Cerca de seis meses. Independente do fracasso japonês, a OST é sensacional como costuma ser em toda a série? Não e sim.
Guilty Gear 2 Overture OST Vol. 1

Daisuke Ishiwatari, que nasceu na África do Sul e trabalhou na SNK (fez o design de dois estágios de Last Blade) antes de fundar a Arc System Works, é totalmente polivalente, ocupando funções da mais diversas na série. Aqui fez planejamento, design de personagens, dublou o lutador Sol e compôs a trilha sonora. Parece que Ishiwatari quis aumentar a sua versatilidade ao provar que também é capaz de compor em outros gêneros musicais que não o rock. Se você gosta, nem que seja um pouco, deveria ouvir pelo menos a trilha do primeiro Guilty Gear. Não essa. O primeiro volume dá uma guinada geral no estilo característico, provocando um espanto nos ouvidos acostumados com guitarras nervosas e baterias agitadas. Músico recorrente em animes (muitos deles não populares por aqui), Hiromi Mizutani arranjou 51 faixas assinadas por Ishiwatari distribuídas em dois discos com um viés mais erudito.
A impressão inicial é boa. O coral de “Castle” até ensaia a excelência das músicas de Shadow of the Colossus. Mas só ensaia. De fato, “Trouble” e “First Impact” parecem os maravilhosos temas de batalha contra os colossi. Mas só parecem. O maior problema aqui é a artificialidade. Todos os instrumentos são sintetizados e não apresentam a mesma pegada caso as peças fossem realmente tocadas por uma orquestra – o próprio Shadow, Dragon Quest VIII e Super Mario Galaxy agora nos deixaram exigentes, fazer o quê. Pior é que a trilha é acometida por atos de esquizofrenia. “Sacrifice” mistura batidas eletrônicas, coral feminino… Bizarro demais. Uma ou outra pode até chamar a atenção, como “Brainwashing”, uma das únicas com vestígios de guitarra, mas é pouquíssimo para a trilha de uma série que costuma ter faixas fantásticas do começo ao fim, convenhamos.
Guilty Gear 2 Overture OST Vol. 2

É como virar o lado do disco de vinil: tudo o que o Vol. 1 tinha não se aplica ao Vol 2. De volta ao hard rock tão bem executado na série, com a diferença de que são instrumentos de verdade, com uma banda mesmo tocando. Estranhamente, não é a A.S.H. do Guilty Gear XX e outros. O arranjador do CD, Yoshihiro Kusano, na guitarra (também fez o mesmo em Guilty Gear Isuka, mas ladeado por outras pessoas); Koichi Noda no baixo; Go e Kaichi Kurose na bateria. A primeira “Keep Yourself Alive 3” já abre o disco de forma animada, com as guitarras explodindo. Aí na conhecida “Holy Orders (Be Just Or Be Dead)” aparece uma surpresa: o violino de Ayumu Koshikawa acompanha a guitarra, resultando em um estupendo rock sinfônico, o que também acontece em “Curtain Call”, um pouco mais tranqüila. Quem conhece a original não pode deixar de escutar essa. A gótica “The Man”, que tem toques de Castlevania, começa com cravo e órgão (ambos sintetizados), dando a deixa para as guitarras. Outra mistura bem-vinda. “Worthless as the Sun Above Clouds” é a mais pesada de todas, com dispensáveis gritos guturais que arranham as ótimas sessões guitarrísticas.
Qual é a última moda em temas de batalha final? Rock e coral como Nobuo Uematsu já usou à exaustão em Blue Dragon e Lost Odyssey… E o mesmo ocorreu aqui, mas a participação do coro é um pouco mais reduzida. Com 15 faixas, cerca de um terço do primeiro volume, o segundo consegue assegurar a qualidade do hard rock da série, abrindo espaço para salpicadas de audácia, com a introdução de violinos e coral, e sem apelar para o que muitos compositores fazem quando falta inspiração: compor toda a trilha no piloto automático.